“Venerado seja entre todos o matrimônio e o leito sem mácula” (Hb 13.4)
De modo frequente, na minha prática profissional, recebo famílias que procuram ajuda, pois encontram dificuldades na educação dos filhos, queixando-se por vezes que a criança ou adolescente apresentam comportamentos distintos dos valores familiares. Os sintomas que comumente despertam grande preocupação por parte dos pais são relativos à sexualidade, má performance escolar, ansiedade infantil ou juvenil, más companhias, entre outros. A pergunta que sempre me fazem é: Como é possível crianças criadas com valores cristãos terem problemas na área da sexualidade? Afinal isso não combina com uma família cristã. As primeiras perguntas que lhes faço são: Como vai a relação do casal? Como é expresso o afeto entre vocês e com os filhos? As crianças dormem em quarto próprio, adormecem sozinhas ou não?
Impressiona-me a quantidade de famílias em que pais e filhos dormem juntos na mesma cama. O casal, então, só pode expressar sua intimidade em momentos fortuitos, às vezes esperando as crianças dormirem para desfrutar desse momento tão especial. Considero que, além de ser muito desconfortável, visto que as crianças em geral dormem de forma mais agitada, isso denota uma falta de diferenciação entre os membros da família, o que pode levar a uma confusão em relação aos papéis familiares. A cama de casal tem a ver com matrimônio, com intimidade física e emocional. É um espaço privativo que não pode e não deve ser dividido com os outros membros da família, pois simboliza uma cumplicidade única onde não existe espaço para outros. Os filhos são a consequência da intimidade conjugal, e não a causa dela, portanto eles não devem vir em primeiro lugar. Quando uma família inteira dorme junto, invadem-se fronteiras, criando confusão na cabeça dos filhos: eles se percebem iguais aos pais. A cama de casal deixa de ser espaço de intimidade conjugal e passa a ser espaço comum, minando a cumplicidade. Por vezes até o marido ou a esposa deixam a cama de casal e dormem na cama de um dos filhos, criando assim uma confusão ainda maior, pois a criança passa a fazer o papel que compete apenas ao cônjuge. Quando as crianças dormem junto com seus pais, cria-se nelas uma profunda insegurança, pois elas se sentem incapazes de realizar sozinhas a prática mais primária e instintiva, que é o sono relaxado. Essa incapacidade de realização solitária se reflete nas outras áreas da vida da criança, tornando-a extremamente dependente e ansiosa e gerando dificuldades em relacionar-se com o diferente, pois a família mostra-se onipresente, inclusive durante o sono. O casal, por sua vez, deixa de lado a conjugalidade e passa a exercer o papel de pai e mãe em tempo integral. Trocam-se os papéis em vez de somá-los e rompem-se os laços da ternura e da intimidade, porque o precioso espaço reservado para o desenvolvimento dessas dimensões deixou de ser só dos dois. Manter o leito matrimonial sem mácula é uma questão muito mais profunda do que apenas não cometer adultério. Tem a ver com manter uma relação conjugal harmoniosa e de cumplicidade, na qual não existe espaço para terceiros, nem mesmo os próprios filhos. Quando os filhos percebem que o casamento de seus pais é sólido, que há ternura e cumplicidade entre o casal, que o afeto é expresso e o desejo de estar juntos é visível, os filhos podem crescer tranquilos e, ainda que eventualmente chorem para dormir com os pais, sabem que a cama de casal é exclusiva.
• Dagmar e Carlos “Catito” são casados, ambos psicólogos e terapeutas de casais e de família.
